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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Sabor com história II (ou outra maneira de dizer EVO)

Continuando este pequena mas sentida trilogia (ler aqui a primeira parte)  volto às mesmas personagens. Ele. Espanhol em Portugal com o amor da sua vida. Em Lisboa. Um reencontro tão aguardado, esperado por longos 12 anos. E é a escutar Pablo Alborán que vos escrevo este post inédito.

Acariciou timidamente a pega da aldraba de ferro antes das três pancadas enérgicas que queria imprimir. Este era o momento. Respirou longamente com todas as emoções tolhidas por um medo absurdo que lhe colava a camisa caqui nas costas.
Esperavam, desde aquele Verão longínquo, o tempo que chegaria e voltariam a estar juntos. Ambos sabiam, no silêncio dos anos, que se repetiria a magia que nenhum sabia explicar.
Apoiou a testa na madeira encerada e cerrou os olhos. Não dormira na noite passada na expectativa do reencontro e depois da longa viagem, agora a arritmia era a maestrina que dirigia o nervoso tamborilar que imprimia com a ponta dos dedos na porta. Mas ela sentira-o e, desassossegada, descerrou as portadas. Olhos nos olhos leram tudo sem falarem nada e antes mesmo de um titubeante “Hola” ou “Entra”, enroscaram-se num apressado e apertado enlace, reconhecendo o molde perene do encaixe perfeito mais apetecido da última década. Demorou acontecer o nano-segundo inefável em que as duas pessoas sabem tacitamente que um abraço terminou: as quatro mãos percorreram costas, roçaram nucas, enovelaram-se nos cabelos, acariciaram lóbulos de orelhas e desceram pelas maçãs dos rostos afadigados numa espera descontente. Continuamente em uno quedaram-se tímidos e o abraço imperecível esboroou-se. Ele disse: “coño, no me mires así” e ela respondeu: “entra mazé”
Tinham falado por telefone a combinar tudo, escrito cartas um ao outro, mas a vida não havia ficado suspensa nesses doze anos que não souberam um do outro.
Ela abriu as portadas e ele segurou os óculos que havia colocado sobre a mala e rodopiou-a pela entrada. Ela sorriu e todos os receios se desvaneceram quando o admirou agora de óculos postos. “A sério que esses são os teus óculos?” Ele, sem perceber, levou a mão livre ao rosto num gesto interrogativo: “mis gafas?” Ela soltou uma gargalhada e resumiu: “anda daí, já te mostro!” Ele seguiu-a rolando a mala distraído até à saleta onde ela foi buscar os seus óculos e os colocou com ar de desafio. Não precisaram palavras. Uma década depois sabiam que tudo era autêntico ao se olharem com um modelito redondo de tartaruga ARMANI exactamente igual. “Pero no me mires así, coño!” brincou de novo, sem lhe ocorrer nada mais.
Esquecida a mala na saleta, ela desajeitadamente lembrou-se de lhe oferecer um café, mas ele só aceitou uma água. E foi sentados frente a dois copos e um jarro que desabaram na conversa bilingue em que contaram os doze anos de ocorrências em suas vidas. Voltaram a encher o jarro diversas vezes durante a longa conversa que durou ininterruptamente durante três dias e três noites. Não comeram, não dormiram, não nada… a conversa tinha de existir, o paralelismo não se limitara aos óculos iguais e fascinados não poderiam deixar de relatar à vez tudo o que fizeram, deixaram por dizer e o quanto desejaram terem construído essa vida que mereciam ter vivido juntos. O cansaço não os venceu e apenas com o jarro de água por companhia, decidiram que deveriam cozinhar alguma coisa. Ela abriu a porta do frigorífico e decidiu num ápice que queria fazer, na primeira vez que cozinharia para ele, o seu bacalhau com natas – algo simples e prático de confeccionar para quem não se alimenta há 70 horas...!! – e a conversa continuou enquanto ambos preparavam os ingredientes com uma dança conjugada como se sempre tivessem cozinhado juntos. Enquanto fazia o molho branco e ele deixava as rodelas finas de cebola esbranquiçarem, ela quase desfaleceu com a fome que se apossou de todo o seu ser depois de tanto tempo sem tão pouco pensarem em se alimentar, e, depois de a sentar e lhe dar mais um copo de água, nesse ténue momento ao seu redor, ele beijou-a pela primeira vez nesta vida.

Receita (do meu) Bacalhau com Natas

2 postas de bacalhau grandes
1 kg de batatas
3 cebolas grandes
1 l de leite
2 pacotes de natas
sumo de 1 limão
2 colheres de sopa de farinha
1 colher sopa de manteiga
azeite e folhas louro
sal, pimenta, noz moscada q.b.

Coze-se o bacalhau, arrefece-se e depois limpa-se de peles e espinhas e separam-se em lascas generosas. Fritam-se as batatas em cubos largos, alourando só. Cortam-se as cebolas em rodelas muito finas e deixam-se em lume brando em azeite,  com uma folha de louro, até esbranquiçarem. Paralelamente vai-se fazendo o molho branco. Junta-se as lascas de bacalhau, tempera-se de noz moscada (eu gosto de colocar uma malagueta) e salteiam-se, só depois as batatas mal fritas e envolve-se para continuar a saltear. Ao molho branco junta-se as natas e reajusta-se o tempero (sal, pimenta, noz moscada e sumo de limão). Deita-se num tabuleiro de forno, rega-se com o molho (eu gosto de o envolver) e vai ao forno meia-hora em forno médio. Deixe o gratinado lourinho.
O tabuleiro pode ir à mesa e acompanhe com uma salada verde (eu gosto de servir apenas alface estaladiça e sem tempero)

Sugestão light? - não frite as batatas, coza-as, vão ser salteadas a seguir...
Sugestão menos light? - Antes de levar a gratinar, esboroe por cima um pouco de miolo de broa de milho, coloque azeitonas e rodelas fininhas de uma boa chouriça. hummmm...

          


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Sabor com história I (ou outra maneira de dizer EVO)

Não poderia escrever esta trilogia de posts sem começar pelos doces regionais portugueses, da zona de Aveiro, que mais amoooooo!!! E como hoje os tenho em casa, é ao sabor doce, doce, doce dos ovos moles de Aveiro e a escutar Chopin que vos escrevo este post inédito.


Ele. Espanhol em Portugal, com o amor de sua vida. Em Aveiro. Conheceram-se em jovens e souberam ainda antes do primeiro olhar que nada iria ser igual. Com o decorrer dos anos, constatou com alguma lástima que o escassear do cabelo era directamente proporcional ao acréscimo de peso e dos problemas de saúde inerentes. Ela ainda fresca e saudável - cuida-se! - Ele com um grave problema de colesterol que não lhe permite as ousadias gastronómicas que nunca conseguiu relegar para um segundo plano. Filho de uma mãe italiana cuja distracção na sua vida de dona de casa abastada sempre fora experimentar a gastronomia de todos os países por onde viajaram e a gabavam de não repetir um prato a cada dia do ano, estava-lhe na massa do seu sangue gordo o prazer de abrir portas à Dona Gula. Ela cuidava-o, aconselhava-o, mas não havia forma de contornar o tanto que ele gostava de queijos e não abdicava da sua matéria 60% gorda... Ela era engenhosa na forma de o cuidar. Ela é o seu quesito (=queijinho em espanhol).
Ela em Aveiro, naquela eterna viagem, quis comprar uma barrica. Afinal é o seu doce favorito! Mas não permitiu que o seu amor provasse sequer uma colherzinha daquele ouro puro que é veneno na contagem de triglicéridos. Ele insistiu, apelou, pestanejou até, fez aquele olhar de cachorrinho sem dono... que não poderia viver sem pelo menos uma vez na vida provar o doce favorito da sua amada! Ela olhou-o nos olhos relevando o dengo e sorrindo, disse: "Uma vez na vida, então." Ele aceitou o desafio sustendo o olhar intenso. Ela riu e inventaricou ali, num momento irrepetível, uma maneira subtil de seu amor saber como os ovos moles são doces sem os provar: mergulhou a sua língua na barrica, inundou a boca com o sabor único que acordou todos os sentidos, e de seguida, beijou-o longamente.
Se me perguntarem ainda hoje a que sabem os ovos moles de Aveiro? Sabem a beijo bom, bom, bom...!! Sabem ao melhor beijo da minha vida.

Receita:

Sendo este um doce regional, muitos podem afirmar que publicam a receita original, mas quer saber? Eu não creio que seja A original... Aqui fica publicado um link da receita mas, na minha modesta opinião, a verdadeira maneira de conhecer esse doce? 

Venha até Portugal, e nessa viagem, mesmo que não vá a Aveiro, em todas as cidades já se vende os doces regionais (oieee? somos um país bem pequeno, viu? Bem menor que qualquer um dos vossos estados!!!) Então, venha a Portugal, prove ovos moles e... sendo o caso, se puder, beije...


domingo, 1 de abril de 2012

Autismo e comida Azul?

Existe comida em tons de AZUL...??? Li num livro sobre personagem autista (oferta da minha amiga Gisela) que o jovem comia por cores e a mãe, à quinta-feira, só lhe fazia comida azul. Fiquei curiosa. A minha primeira ideia foi de repulsa, ou pensar que são só corantes artificiais, mas é um engano. Se fechar os olhos, ocorre-me uma cesta de fruta - blueberries ou mirtilos. E se existe (e é tão bommm), se tem uma cor que tinge tanto, porque não pode haver comida em tons de azul?
Apesar de ser uma cor fria, é uma cor apetecível (pelo menos para mim e para tantas pessoas que adoram a cor azul), consigo imaginar mil combinações de fazer um empratamento definitivamente original, e para os curiosos, que tal experimentarem uma boa novidade?, apesar da estranheza, diria que resulta em convidativo e até apetitoso.

Pensar em arroz azul? Nahhhh só pode ser corante artificial ou photoshop!, mas resolvi pesquisar esta ideia de comida em azul e pasmem!!, descobri este arroz que é obtido da forma mais pura. Na Malásia há um prato chamado Kerabu Nasi (Nasi é um arroz cozido, Kerubi uma mistura de legumes ou seja, significa prato de salada de arroz com legumes, se bem que os legumes utilizados sejam deveras originais por si, para o palato ocidental - receita mais abaixo) acompanhado por um inusitado (aos nossos olhos) arroz azul, que é obtido a partir do de uma flor cujo nome me transportaria a outras histórias e sabores que não são para aqui chamados... Apresento-vos ... a flor Clitoria.
Não duvidem, fui pesquisar na net (fala sério... encontrei muita bobagem com as palavras que joguei no google até que acabei encontrando o que queria), estas flores são usadas como corante natural  neste bonito tom de azul,  e agora já me parece  definitivamente apetecível em alimentos, sabendo que não é corante artificial.
Curiosidade? Sabia que na China os bolos de cor azul (ou kueh) raramente são usados? Porque lá a cor azul significa luto e nos funerais, não oferecem kuehs azuis e brancos para a alma falecida. Assim, nunca faça qualquer kueh tradicional na cor azul e vá de a oferecer a alguma pessoa idosa, se você puder evitá-lo, fica simpático...!! fica a dica.

Devo confessar que não sei exactamente como passam as flores a corantes alimentares, mas calculo que seja receita ancestral que passa certamente por secarem as flores ao sol, e depois de secas, como nesta imagem, fazer uma infusão na água a ferver para que obtenham a cor azul. Já o arroz?, bom, se usar este "caldo" no arroz, numa sopa em outra comida, o que acha que acontece?

Vamos fazer uma Receita de Sopa Clitória?

Sim, é claro, onde arranjaríamos nós o corante natural de flor de clitória? Mas se o tívessemos, eu inventaria uma sopa de legumes básica de courgette, chu-chu, batata, nabo, cebola e dentes de alho (sim, uma base branca para não comprometer a cor lindaaa) e jogaria o corante da flor clitória no final. Na foto está umas raspas de queijo da ilha (açoriano) e, quem sabe,  umas gotas de lima ou de limão e um pouco de pimenta ralada no momento. Afinal, apimentar uma sopa de clitória não me parece nadaaa errado...

Mas vamos à receita de Nasi Kerabu

1 xícara de coco fresco ralado
1/2 xícara de peixe seco (bile ikan)
3 xícaras de arroz cozido (como para sushi)
1 talo de erva-príncipe em fatias finas
1 pedaço de raiz de gengibre em fatias finas (a gosto)
1 pedaço de raiz de açafrão-da-terra em fatias finas (a gosto)
1 pedaço de raiz de galangal, em fatias finas (a gosto)
4 chalotas, em fatias finas
1 molho de folhas de aipo
1 ramo de coentros
1 ramo de hortelã
1 molho de agriões
10 folhas de lima Kaffir
4 colheres de sopa óleo vegetal, mais 2 colheres de sopa para fritar
sal e pimenta qb

Aqueça uma panela grande em fogo muito baixo. Adicione o coco e vá mexendo sempre por 20 minutos. Ele vai se transformar dourar e secar. Deixe esfriar e, em seguida moer com a textura de pão ralado fino em um processador de alimentos ou almofariz/pilão.
Aqueça 2 colheres de sopa de óleo na wok e adicione o peixe seco. Salteie, mexendo sempre, até que fique dourado, será cerca de 5 minutos. Deixe esfriar e corte em pedaços pequenos.
Escolha as folhas dos caules das ervas. Junte as folhas em cachos pequenos, com as folhas lima kefir do lado de fora. Pique finamente em juliana.
Numa tigela grande, misture todos os ingredientes. Tempere os vegetais com o óleo, adicione sal e pimenta a gosto e sirva.
Tinja o arroz branco para azul com corante natural de flor de clitória (a gosto)


E se nesta viagem pela refeição azul acompanhar com chá de clitória e servir para sobremesa sorvete de mirtilo? Conseguiria ou não uma refeição toda toda azul para a personagem autista numa hipotética quinta-feira?



Espero que as pessoas continuem a plantar esta planta linda, e a manter a tradição de usar a flor clitória naturalmente como o corante alimentar por excelência, uma vez que os aditivos azuis na culinária me parecem perigosos, aliás, na minha pesquisa constatei que nomes como azul claro e anil correspondem a muitos EEEE's (nunca sabemos o que ingerimos, não é?) uma vez que só de aditivos azuis existem assustadoramente mais de 130 EEE's e sim, em muito países a legislação proíbe-os, porque são considerados cancerígenos.


Pessoalmente? Bom....... A simples ideia de uma trepadeira verdejante de flores azuis numa casinha de portadas azuis fascina-me, apazigua-me a alma. Encanta-me a ideia de romantizar e eternizar em algum livro,  uma família com pessoa com autismo que more numa casa caiada de branco com uma trepadeira com flores azuis e que estranhamente fazem sopa azul ao serão.

E porque hoje falo de comida Azul??
Azul. A cor que alguém convencionou para representar o Autismo. O Autismo é a disfunção global do desenvolvimento com maior crescimento no mundo. No mundo, a ONU estima que 67 milhões de indivíduos em todo o Mundo sejam afectados pelo Autismo. Na maioria dos países o Autismo é mais comum que doenças oncológicas, diabetes e HIV juntos. Você sabia?


Encorajamos a todos bloguistas, publicar um post AZUL dia 2 de Abril, a acender uma luz na janela de sua casa, em seu emprego em azul, a vestir-se de azul, a pintar as unhas de azul, ou a fazer comida azulzinha!!!, mas a parar, um dia só que seja do ano em sua vida, e reflicta sobre uma perturbação que, a ser reconhecida na rua, por quem por nós passa, faria a vida destas pessoas e suas famílias muito mais simples.
Obrigada por um gesto que até é simples, tal como a população autista que conheço me tem vindo a ensinar a dar importância ao que tem valor na vida - o SIMPLES.



terça-feira, 15 de junho de 2010

Sopa de Urtigas


para ler ao som de O'queStrada - Qualquer coisa me anima

Sopa de Urtigas
por Ana Martins

Era desta que ia cozinhar à revelia. No domingo a sua santa sogra vinha à cidade visitar o seu menino. Naturalmente Sandro convidara-a, pelo que viria a sua casa almoçar, inspeccionar onde e como andava o seu menino a ser tratado. Pouco importava as virtudes de Cláudia, a dona Anabela (perdão… Madame Bell) teria sempre que apontar, mesmo à distância, fosse na terrinha ou no início de viverem juntos, quando a santa ainda trabalhava lá na sua França.
Apetecia-lhe tanto cozinhar para a sogra como respirar vidrilhos em arroubos de veraneio, mas o olhar abrandado do filho, o também seu Sandro, fizeram-na anuir apesar de se corroer tão vitrinamente. Para se aquietar, pensou num ingrediente que sabia comestível e nunca tinha experimentado confeccionar. Contudo, seria o local mais simpático onde gostaria de sentar o traseiro anafado da madame sua sogra no almoço de domingo.
Diziam as eruditas comadres que se cortasse as cebolas debaixo de água de chuva não seria acometida de lágrimas salgadas ou se pedisse autorização à natureza as urtigas não lhe morderiam as costas das mãos mas, mais prudente, Cláudia resolveu-se por um chapéu de palha, luvas de jardinagem e uma antiga cestinha de vime e, qual capuchinho vermelho, seguiu pelo caminho proibido da floresta.
A receita era simples e o truque gastronómico na assadura. Em honra do nome que dona Anabela, a senhora sua sogra adoptara depois de regressada na petulante Madame Bell, tinha apanhado umas flores em forma de campainhas, que colocou suavemente ao empratar o cálido caldo.
Já de crianças ouvíamos que o crime não compensava, nem sequer as pequenas malvadezas infantilizadas como servir uma sopa de urtigas à sogra. A punição que Cláudia nunca comentava, porém mortificava-se, a cada vez que o seu Sandro lhe pedia que fizesse a sopa que adoptara como favorita, era incomensurável.

Receita:
(gostava da candura como lhe fora passada)

água da chuva q.b.
cebola nova
Assa-se a cebola no forno com uma pitada de sal, pimenta rosa e um fio de luar de azeite. Depois de assada, coloca-se numa panelinha ao lume com da água da chuva e deixa-se cozer. Lava-se muito bem as urtigas, tempera-se com umas gotas de lágrimas se houver picadelas e coloca-se dentro da sopa. Passa-se tudo em remoinho como a vida e retempera-se. Sirva cálida.

(receita gentilmente cedida pelo Restaurante Bem Me Quer Vegetariano)



sexta-feira, 11 de junho de 2010

Almoço de Verão

Depois da simpática Walnize entrar neste blog a semana passada, surge agora o convite do outro lado do Atlântico da Ana Paula Motta, e eis que entro eu - e se estou de chegada, começo com uma memória de partida.


para ler ao som de Imogen Heap - Hide and Seek


Almoço de Verão

por Ana Martins

Os dias quentes de Verão estão de partida. Os quentes de sufocar, de pedir para dormir ao relento por não aguentar o calor dentro das paredes numa casa que não chegava a arrefecer. Dormir no jardim com os irmãos, reclamar das picadas de melgas, tagarelarmos e galhofarmos até cada um adormecer de cansaço. Nenhum dava conta da mão materna que tapava com desvelo cada ombro desnudado.
Hoje não há noites abrasadoras de Agosto. Sol no Inverno chuva no Verão. Há dias que temos as quatro estações reunidas no mesmo dia. Nem é tão linear ser absolutamente impensável uma boa feijoada nos dias que seriam quentes ou uma colorida salada nos supostamente frios. O mundo gira e transforma-se perante os nossos olhos - nada é estanque, tudo é global - como um jogo infantil de escondidas quando não somos mais crianças, nem temos vontade de brincar.

Hoje, sendo o meu primeiro post neste blog saboroso, trago-vos não um conto, mas uma refeição completa:
Uma salada
de base de cuscus e feijão frade (ou grão de bico) onde se junta alguns sabores em cru bem marcantes e diferenciados como aipo, pimento, cebola, kiwi (ou abacaxi), gengibre e malagueta (se gostar de apimentar a vida). Tempera-se simplesmente com sumo de lima, coentros picados e cominhos. Eu gosto de acrescentar hortelã, alfazema, bagas goji e sementes de papoila.
Um gelado
de nata, podendo ser de compra ou caseiro. Eu bato, para uma lata de leite condensado, 2 a 3 pacotes de nata, vá lá, pode ir até 4, se forem mesmo gulosos. Gosto da consistência e intensidade. Mas mesmo os mais gulosos enjoam este gelado caseiro se não tiver uma boa calda que, por outro lado, consegue transformar uma simples embalagem de gelado de nata de supermercado numa sobremesa gourmet. Para esta proporção de gelado, junte açúcar a gosto a 1/2 kg. de morangos (dos pequeninos e bem doces, não vale a pena fazer com os que parecem enxertados em cortiça com esferovite...) e esmague num almofariz ou - de uma forma menos romantizada e mais prática - com a varinha mágica. Eu gosto de adicionar umas folhas de hortelã fresca. Verta a calda de morango sobre o gelado de nata e tente não fazer essa cara tão voluptuosa ao saborear.
Um cappuccino gelado
Existem máquinas de cápsulas no mercado, mas deixo-lhes um bom truque que faço para o conseguir mais cremoso. A cada cápsula, a de leite e a do café específicas para o Cappuccino Ice, o fabricante recomenda a posição na máquina de água fria e juntar pedras de gelo. Eu gosto de gelo lascado ou moído (não fica tão pesado na bebida) e o truque é rebentar a cápsula com a posição na máquina de água quente e só depois mudar subitamente para frio. Para as duas cápsulas. O choque térmico produz uma espuma apetitosa. Se deixar a arrefecer um pouco (com o gelo) antes de o beber, as camadas que se vão desenhando nos vários tons de café com leite produzidos, são de uma tão grande beleza que recomendo seriamente um copo ou chávena de vidro.




quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Bobó de camarão

A origem do prato segundo é africana, daí ser típico da Bahia, o estado mais africano do Brasil. Um prato tão baiano quanto o som de um berimbau.

A versão da Wikipédia:

"Bobó é um prato da culinária brasileira popular na cozinha da Bahia, de origem africana. Trata-se de um creme pouco consistente feito de inhame, vinagreira, etc., cozidos e amassados com azeite-de-dendê, pimenta, sal e um pouco de camarão seco. Pode ser servido quente, morno ou frio, como prato principal ou como acompanhamento.
O bobó de inhame e o de vinagreira são os mais antigos, preparados desde o século XVII. Depois, foram sendo sofisticados com o acréscimo, à massa básica, de frutos do mar (camarão fresco, caranguejo desfiado, mexilhão, bacalhau, etc.), previamente refogados.
O atual bobó de camarão, prato de renome, também tem, entre seus ingredientes mandioca e leite de coco."

O bobó de camarão, típico do estado brasileiro da Bahia, é um prato muito popular em outros lugares do Brasil, no entanto,com algumas modificações. No Rio de Janeiro, costumamos fazê-lo com azeite de oliva e não de dendê (um tanto forte para os paladares não inciados na culinária baiana) e com o leite de coco opcional (outro sabor também muito característico que não agrada a todos).

A minha receita de bobó, que aprendi ainda menina com um primo, é bem simples e fácil, com sabores mais suaves.

Bobó de Camarão

1 quilo de camarões com casca
1 quilo de aipim (mandioca) cozida
2 cebolas grandes picadas
1/2 molho de coentro
300 g de molho de tomate
sal q.b.
azeite de oliva q.b.

Leve o camarão ao fogo com um pouco de sal, sem acrescentar água, numa panela grande. Espere ficar vermelho e a água (que escorre naturalmente do camarão secar). Feito isso, descasque os camarões (guarde as cabeças para preparar um bom caldo). Leve uma cebola ao fogo para refogar com um pouco de azeite, junte as cabeças de camarão e um litro de água. Depois de apurar, passe por uma peneira e reserve o caldo.
Refogue a outra cebola em azeite, junte os camarões e o molho de tomate, espere apurar. Bata o aipim no liquidificador (aos poucos) com o caldo reservado ( se necessário junte mais água).Junte o aipim batido aos camarões na panela e espere ferver bem e apurar o sabor. Prove o sal e acrescente o coentro picado e mais azeite. Se gostar junte 100 ml de leite de coco. Sirva com arroz branco.

sábado, 16 de janeiro de 2010

BACALHAU À MODA DE BRAGA


Cidade de Braga...uma gastronomia riquíssima, o bacalhau assume-se como o prato favorito. A cidade é famosa pelas receitas de bacalhau, como por exemplo, o Bacalhau à Narcisa, o Bacalhau à Minhota e o Bacalhau à Moda de Braga. Além disso, o arroz de pato, as papas de sarrabulho com rojões, a tripa enfarinhada, os farinhotes, os enchidos de sangue, o cabrito à moda de Braga, as frigideiras do Cantinho ou as da Sé, os rojões à moda do Minho, o frango "pica no chão", o vinho verde, o Pudim Abade de Priscos, o toucinho do céu, o bolo rei escangalhado, fidalguinhos, pederneiras, suplícios, paciências, entre muitos outros, fazem de Braga uma cidade de sabores...e amores!
Desta feita, deixamos o Bacalhau à Moda de Braga...mas prometemos mostrar um pouco mais desta riquíssima gastronomia que nos orgulha.

BACALHAU À MODA DE BRAGA

Ingredientes:
- postas de bacalhau do lombo demolhado
- 3 cebolas grandes
- azeite
- colorau
- pimenta
- sal
- folha de louro
- vinagre
- 1 kg de batatas (fritas às rodelas)

Modo de preparação:
Frite muito bem as postas de bacalhau em azeite.
Faça uma cebolada no azeite em que fritou o bacalhau e deite uma folha de louro, o colorau, a pimenta, o sal e uma gotas de vinagre.
Coloque as postas do bacalhau numa travessa e coloque por cima a cebola.
Acompanhe com batatas fritas às rodelas.
Para beber...um Vinho Verde...da região.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Feijão tropeiro: um prato dos desbravadores

Há várias histórias que cercam a origem desse prato. Alguns falam que surgiu quando as tropas de gado eram tocadas do Rio Grande do Sul para o Paraná e São Paulo. Outros que surgiu quando os tropeiros que faziam o transporte do ouro entre as Minas Gerais e o Rio de Janeiro através da antiga Estrada Real.
O certo é que a mistura de feijão sem caldo, farinha de mandioca,linguiça, toucinho e carne seca surgiu da necessidade de um prato que fosse facilmente conservado e preparado nas estradas, nos acampamentos dos tropeiros.
Hoje o feijão tropeiro é um clássico da comida mineira, tem sabor à Minas Gerais mas é apreciado em todo o Brasil e acompanha tanto a carne de porco quanto o tradicional churrasco.
Deixo aqui a receita da minha irmã Cecília, que faz sucesso tanto acompanhado de uma costelinha de porco quanto de uma carne de boi na brasa.
No link em seguida um post sobre o Tropeirismo no Brasil (http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=496)


Feijão Tropeiro

Ingredientes:

6 dentes de alho
1 cebola grande
4 ovos
300 g de linguiça da preferência
100 gramas de bacon
300 g de carne seca
500 g de farinha de mandioca
300 g de feijão cozido, lavado e bem escorrido
óleo de soja
azeite
cebolinha
1 molho de couve cortada bem fina
torresmo

Deixe a carne seca em água fria para a retirada do sal (troca-se a água várias vezes) de véspera. Corte em fatias finas
Escalde a linguiça em água fervente e corte em rodelas.
Corte o bacon em cubinhos.
Frite a carne seca, a linguiça e o bacon e reserve. Junte um pouco de óleo à gordura que ficou na panela e junte 3 dentes de alho, a cebola picada e quando estiverem dourados junte os ovos, frite e quando estiver no ponto parta os ovos em pedaços e junte as carnes fritas e a farinha. Forme uma farofa. À parte refogue os 3 dentes de alho restantes e junte ao feijão reservado. Junte o feijão à farofa e mexa bastante para que todos os ingredientes fiquem bem incorporados, junte a couve e termine com a cebolinha picada. . Regue com azeite e acerte o sal.Cubra com torresmo
Sirva acompanhando carne de porco ou churrasco.

*Receita corrigida às 14:18 do dia 13 de janeiro porque me esqueci do torresmo.



terça-feira, 5 de janeiro de 2010

TRIPAS À MODA DO PORTO



…é um prato tradicional nascido na Cidade do Porto, e que remonta ao período dos Descobrimentos Portugueses.

Reza a história que o Infante D. Henrique, também conhecido na História como Infante de Sagres ou Navegador, precisando de abastecer as naus para a tomada de Ceuta na expedição militar comandada pelo Rei D. João I em 1415, pediu aos habitantes da Cidade do Porto todo o género de alimentos.
Todas as carnes que a Cidade tinha foram limpas, salgadas e acamadas nas embarcações, ficando a população sacrificada unicamente com as miudezas para confeccionar, incluindo as tripas. Foi com elas que os portuenses tiveram de inventar alternativas alimentares, surgindo assim o prato "Tripas à moda do Porto" que acabaria por se perpetuar até aos nossos dias e tornar-se, ele próprio, num dos elementos gastronómicos mais característicos da Cidade. De tal forma que, com ele, nascia também a alcunha de tripeiros, como ficaram a ser conhecidos os portuenses desde então.

Ingredientes:
1,5 kg de tripas, folho e favos de vitela
150 g presunto com gordura
1 orelha de porco
1 mão de vitela
1 chouriço
1/2 frango
2 cebolas
1 l feijão-branco
4 cenouras
1 folha louro
100 g banha
1 ramo de salsa
1 limão
sal e cominhos q.b.

Modo de preparação:
As tripas devem ser bem lavadas e esfregadas com sal e limão. Colocam-se num recipiente com água e rodelas de limão, até ficarem brancas.
Cozem-se, separadamente, as carnes e o feijão. Num tacho, leva-se a alourar na banha, a cebola e a folha de louro. Juntam-se as tripas e todas as carnes cortadas aos bocados, o feijão, as cenouras cozidas e um pouco de caldo de carne, tempera-se com sal e cominhos. Ferve durante 25 minutos e serve-se em terrina polvilhada com salsa picada.
As tripas são acompanhadas com arroz de forno, que se serve simultaneamente.

A história dos sabores


Quando resolvemos criar esse blog, há quase um ano, eu e a Natália pensamos inicialmente em contar histórias de família e as receitas que apreciamos e das quais lembrávamos ou tínhamos guardadas em antigos livros e cadernos de receita. Assim nasceu o Sabor e Histórias.
Com a chegada da Maria Margarida nosso blog ganhou mais agilidade e regularidade e postamos receitas tradicionais da época de Natal. Agora vamos começar uma série de "receitas históricas".Na verdade a Natália escreveu um post nessa linha nas suas férias de verão, as ameijoas a bulhão pato.
A nova série começa logo. Espero que gostem.

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